A música do frevo

Tubista de frevo. Foto: Passarinho/Pref. Olinda
Tubista de frevo. Foto: Passarinho/Pref. Olinda

“Uma das características do frevo é ter o ritmo demasiadamente acelerado, pois, foi certamente uma criação de compositores de música ligeira feita para o carnaval”, afirma o pesquisador José Ramos Tinhorão. Segundo ele, os músicos queriam que o povo usufruisse de mais animação nos folguedos. Desta forma, no decorrer do tempo, a música foi ganhando características próprias, acompanhadas por um bailado inconfundível de passos soltos e acrobáticos. Talvez seja a única composição popular no mundo onde a música nasce com a orquestração.

“É característica do frevo possuir compasso binário ou quaternário, isso irá depender da composição, de ritmo freqüentemente sincopado, obrigando a movimentos que chegam a paroxismos frenéticos e lembram, por vezes, o delírio. É uma das músicas mais vivas e mais brejeiras do folclore brasileiro. A comunicabilidade que sua música transmite é tão contagiante que acaba por atrair todos que passam, para tomar parte nos folguedos. É uma dança de multidão onde todas as classes sociais se confundem em promiscuidade democrática”, diz ainda Tinhorão.

Para o pesquisador, o frevo é criação de músicos brancos e mulatos, na sua maioria instrumentistas de bandas militares tocadores de marchas e dobrados, ou componentes de grupos especialistas em música de dança do fim do século XIX – polcas, tangos, quadrilhas, schottisch e maxixes.

Em seu Ensaios de Carnaval, publicado pelo Suplemento Cultural em fevereiro de 1997, o historiador pernambucano Leonardo Dantas Silva registra: “Denominado inicialmente de “marcha”, e, posteriormente, de marcha-carnavalesca-pernambucana” e, por alguns compositores, até os nossos dias, de “marcha-frevo”, a exemplo de Levino Ferreira e Edgard Moraes, o frevo como música tem suas origens nos repertórios das bandas militares e civis existentes no Recife na segunda metade do século XIX: O maxixe, o tango brasileiro, a quadrilha e, mais particularmente , o dobrado e a polca-marcha, combinaram-se, fundiram-se dando como resultado o frevo, ritmo popular ainda hoje em franca evolução rítmica e coreográfica.”

Segundo alguns estudiosos desse gênero musical, o frevo é a única composição popular no mundo onde a música já nasce com a orquestração. Para o musicólogo Guerra Peixe “o frevo é a mais importante expressão musical popular, por um simples fato: é a única música popular que não admite o compositor “de orelha”. Isto é, não basta saber bater numa caixa de fósforos ou solfejar para compor um frevo. Antes de mais nada, o compositor de frevo tem de ser músico.”

Na opinião do pesquisador do frevo Rui Duarte, “foram uns jornalistas e intelectuais que entenderam que frevo tinha que apresentar uma letra, quando a música, pela sua própria natureza, não foi feita para ter parte de canto”. Isso porque, com a divulgação e popularização, no rádio e nas vitrolas portáteis, a marchinha e o samba carioca entraram a concorrer com o frevo pernambucano, sem letra. Para concorrer com a marcha e o samba era necessário cantar também o frevo. Foi aí que nasceu o frevo-canção.