Clubes pedestres constrangiam a elite recifense

Integrantes do bloco Pitombeira dos Quatro Cantos em 1959. Foto: Acervo de Passarinho/Pref. Olinda
Integrantes do bloco Pitombeira dos Quatro Cantos em 1959. Foto: Acervo de Passarinho/Pref. Olinda

A partir da década de 1880, surgem os clubes pedestres, assim denominados em razão da forma como se apresentavam, a pé, em cortejos processionais, com seus estandartes à frente e os sócios formando os cordões. Um formato que se contrapunha aos dos clubes de alegoria, cujos participantes vinham sobre carros. A repressão policial e o preconceito das elites contra o folguedo popular, que perduraram por alguns anos, não arrefeceram o espírito contestador de carnavalescos e foliões.

A partir de 1904, em resposta à resistência popular, a visão e o tratamento dispensados às manifestações começaram a mudar. “A polícia, instância do poder público mais presente no cotidiano das camadas populares, adotou uma nova orientação: passou de violenta, arbitrária e repressora à guardiã dos préstitos das agremiações carnavalescas, ao menos daquelas que se dispunham a colaborar. Os representantes do poder público tencionavam, assim, aproximar-se do povo, do cidadão comum, especialmente da classe trabalhadora, e conquistar-lhe a confiança”, afirma a pesquisadora da Fundaj.

A elite e a classe média tentaram manter-se afastadas daquela turba de miseráveis carnavalescos, refugiando-se nos bailes ou desfilando em carros ornamentados, entre familiares e amigos. “Por volta de 1909, um grupo ligado aos clubes de alegoria e crítica tentou, inutilmente, construir um Carnaval de rua só para si, mas numa outra data, durante a Mi-Carême. Pouco depois, porém, os clubes pedestres passaram a fazer uso da festa, e com muito mais êxito”, afirma Rita de Cássia.

Segundo a antropóloga “para aqueles que sonharam ver a cidade representada por espetáculos grandiosos, protagonizados pela gente fina e elegante, admitir o fato tornava-se duplamente penoso, pois, além de significar uma derrota no plano político-ideológico, implicava reconhecer a vitória de outro carnaval: o carnaval popular, contra o qual tanto se opuseram.