Sala da Justiça faz a farra de marmanjos e da molecada

Nos meados dos anos 90 do século passado, o Carnaval de Olinda andava meio chato. Fora os grandes blocos – Pitombeira, Elefante, Patuscos, Ceroula – não havia muita novidade.

Um belo dia, meu amigo Tuco teve uma idéia: levar os vilões e super-heróis da TV e dos HQs para as ladeiras da cidade. Ele me disse: “Betão, que tal criar um bloco para animar as crianças que saem nos blocos infantis. tipo ‘Eu Acho é Pouquinho’ e ‘Ceroulinha’?”. Eu respondi: “Negão, vai dar errado, mas eu ajudo no que você precisar”. Naquele dia (não me recordo precisamente a data) nascia o “Enquanto Isso, na Sala da Justiça”.

O próximo passo seria reunir a moçada interessada. Convocamos meia dúzia de amigos e marcamos o encontro para a casa de um amigo nosso – Mané. Era dezembro de 1994. Claro que todo mundo adorou a idéia. Eu, cético como sempre, discordei do nome. Considerava-o muito grande. Votação. Fui derrotado por seis a um.

Próximo passo: a primeira festa. Reunimos uns trocados, dividimos as tarefas, e a festa rolou no início de 1995, na casa de Mané, pertinho dos 4 Cantos. Sucesso total.

O que diferenciava a Sala da Justiça (alguns preferem chamar o bloco de “Enquanto isso…”) das outras agremiações? Além das fantasias, o repertório das prévias. As festinhas da SJ ficariam famosas por tocar tudo, de frevo a rock’n’roll. Era comum se escutar no Centro Luiz Freire, primeiro reduto de vilões e super-heróis, James Brown, Gilberto Gil, US3, Sepultura e Jorge Ben Jor. Era uma caldeirão. Os desavisados arregalavam os olhos. Era comum se ouvir a pergunta: “Mas não é uma prévia de Carnaval”? Era, sim. Mas era uma prévia feita por gente que tinha se cansado da mesmice de outras tertúlias carnavalescas.

O surgimento da SJ comprova a tese de que, bloco de Carnaval, principalmente em Olinda, nasce de ideias descompromissadas. Nós não imaginávamos que estávamos criando um estilo de prévia que depois seria copiada Brasil afora.

Depois da Sala da Justiça, tornou-se comum prévias com DJs, e tocando de tudo, misturando sem culpa nem medo de patrulhas.

No começo, as festinhas reuniam 300, 400 pessoas. A partir de 1999, quando resolvemos juntar DJs e bandas (o Eddie foi o primeiro grupo a tocar com a gente), o caldo engrossou. Colocamos quase mil pessoas no Centro Luiz Freire, na rua 27 de novembro, Sítio Histórico. O bloco começava a fazer história. Detalhe: a festa só funciona em Olinda. Tentaram levá-la para o Recife, e nada.

Hoje, estou fora do bloco. No comando, estão Eduardo Baiano, Eliana Maga e Edinho Morais. A festa reúne sempre mais de 12 mil pessoas, e acontece no Centro de Convenções. Sempre com música de qualidade, a marca da SJ.

Beto Rezende nasceu em Sergipe, é jornalista e ainda curte bastante a prévia da SJ

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